Crítica: Liga da Justiça é poesia de Zack Snyder compondo Hallelujah

Crítica: Liga da Justiça é poesia de Zack Snyder compondo Hallelujah

A jornada de quatro anos de Zack Snyder para trazer sua versão de Liga da Justiça aos fãs apaixonados já está muito bem documentada na história, portanto, não vou...

 Crítica: Liga da Justiça é poesia de Zack Snyder compondo Hallelujah
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A jornada de quatro anos de Zack Snyder para trazer sua versão de Liga da Justiça aos fãs apaixonados já está muito bem documentada na história, portanto, não vou me estender muito contando o que você já deve saber. Em suma, a produção do filme foi prejudicada, o roteiro passou por uma série de reescritas, e Snyder oficialmente saiu do projeto apenas seis meses antes de seu lançamento após o trágico falecimento de sua filha, sendo substituído pelo diretor dos Vingadores, Joss Whedon.

 

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Finalizando o projeto com refilmagens, Whedon seguiu as ordens do estúdio, reduzindo o tempo de duração do filme, ao mesmo tempo em que adicionava mais cenas de humor e um tom mais leve. O resultado foi uma decepção: Liga da Justiça teve um desempenho fraquíssimo nas bilheterias após uma surra da crítica especializada e do público.

Após o lançamento, algo incomum aconteceu: um movimento de fãs, reunidos pela hashtag #ReleasetheSnyderCut cresceu, movimentou, agitou, e pressionou a Warner Bros. para que o estúdio lançasse o corte de Snyder trancado na sala de edição. Porém, o movimento não se limitou a fazer justiça apenas ao filme – mas também desencadeou uma campanha social que arrecada dinheiro à Fundação Americana para Prevenção ao Suicídio (AFSP).

No segundo aniversário do filme, foi o dia em que a hashtag teve seu maior alcance, desde o começo do movimento – até mesmo com as estrelas do filme Gal Gadot, Ben Affleck e Ray Fisher adicionando suas vozes no Twitter. Um dia depois, em uma segunda feira de novembro de 2019, o diretor Zack Snyder e sua esposa e parceira de produção, Deborah Snyder, receberam um telefonema de seu agente.

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Foi a primeira vez em que o cineasta obteve sinal verde para concluir sua versão do filme. O agente deles disse que Toby Emmerich, presidente da Warner Bros. Pictures, estava reconhecendo o movimento e, o mais importante, estava disposto a ceder.

É provável que nós nunca mais veremos nada assim novamente, pelo menos não nessas proporções. Uma ressurreição inusitada após várias tragédias pessoais, controvérsias, e uma fandom ardentemente apaixonada. O então chamado Snyder Cut é o tipo de segunda chance que a indústria cinematográfica geralmente não costuma dar.

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Quase um ano se passou, e a famigerada Liga da Justiça de Zack Snyder já está entre nós. Após assistir a nova versão, fica mais do que evidente – pelo menos para mim – o fato de que Snyder sempre idealizou seus heróis passando por uma longa jornada de desconstrução e reconstrução.

Se Batman Vs Superman optou por desconstruir seus personagens e questionar algumas noções pré-concebidas do mundo dos quadrinhos, Liga da Justiça exalta o que há de melhor e mais humano entre os deuses. Acima de tudo, essa versão foi claramente uma contra-resposta ao tom sombrio que o próprio Snyder estabeleceu no filme anterior.

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Movido pelo ato sacrificial do Superman, o Batman (Ben Affleck), por exemplo, deixa de ser aquele justiceiro sem esperanças e facínora que nos foi apresentado em BvS. Aqui, Bruce Wayne, que sempre prezou pela razão, se tornou literalmente um homem de fé.

A Mulher-Maravilha (Gal Gadot), depois de anos afastada da humanidade, agora enxerga o que precisa ser para dar o melhor de si. Em sua morte, o Superman se tornou um símbolo de esperança, o que motivou os heróis frustrados a acreditarem que a humanidade vale o esforço e que ser herói ainda tem seus bons motivos.

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Ao contrário do corte de diretor de Batman vs Superman, a famosa ‘Edição Definitiva’, que funcionou mais uma melhoria marginal em relação ao corte teatral, Liga da Justiça de Zack Synder é uma diferença noite e dia em relação ao que vimos em 2017 – embora o enredo seja idêntico e todas as grandes surpresas já tenham sido reveladas.

No entanto, posso dizer com segurança e muita tranquilidade que a nova versão é uma melhoria infinita em relação ao corte encabeçado por Joss Whedon. É uma experiência rica e muito mais gratificante em todos os níveis, e prova que os fãs sempre tiveram razão. Hallelujah!

Cada personagem é explorado com mais profundidade e nuances que reformulam todo o enredo. O vilão, Lobo da Estepe, tem um antagonismo definitivamente melhor em relação ao original. Com sua armadura metálica funcionando quase como um ‘‘organismo vivo’’, ele mata impiedosamente qualquer um que esteja em seu caminho.

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O que antes era apenas um boneco de CGI terrível e caricato, se torna uma ameaça digna para a Liga da Justiça. Seus ataques em Themyscira e Atlântida são intensos e visualmente perfeitos. Além disso, o arco do vilão também prepara o terreno para a introdução de DeSaad (Peter Guiness) e do aquirrival da super-equipe, Darkseid (Ray Porter).

Talvez as quatro horas tenham sido um exagero, o que acaba soando mais como um corte bruto, do que necessariamente uma versão de diretor. É longo, e entendo a necessidade de eliminar muita coisa para caber dentro de uma exibição padrão nos cinemas. Contudo, é indefensável o quanto de cenas de ação foram suprimidas e banalizadas no corte teatral.

Muitas dessas cenas são espetaculares, principalmente quando são filmadas em câmera lenta estilizada, especialidade de Snyder. O enredo é lotado de arcos, e há uma grande quantidade de enchimento que não precisa. Mas apesar da execução de quase 4 horas, a narrativa, dividida em seis capítulos e um epílogo, não é enfadonha e consegue te manter na história o tempo todo. O filme em si não é lento, pois tem muito a mostrar e contar.

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Outro ponto que não atrapalhou em nada, mas me decepcionou um pouco foi a trilha sonora, embora esteja muito longe de ser ruim ou mesmo perto daquela abominação feita às pressas pelo Danny Elfman. Aqui, a composição de Junkie XL tenta evocar um sentimento nostálgico ao fazer várias alusões ao tema clássico da série animada produzida por Bruce Timn.

Não me entendam mal, é mais um ótimo trabalho do Junkie – principalmente nos momentos em que as Amazonas e Diana estão em tela – mas não se compara às faixas estrondosas, megalomaníacas e poéticas feitas por Hans Zimmer em O Homem de Aço e Batman Vs Superman.

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Em grande parte, as filmagens descartadas não entregaram uma abordagem totalmente distinta do material original, mas desenvolve melhor as histórias de fundo dos personagens. As várias cenas inéditas nos permitem aprender mais sobre o antagonista e por que ele está em uma missão para reunir as três Caixas-Maternas. Vemos um pouco mais da vida de Flash/Barry Allen (Ezra Miller) e muito sobre Cyborg/Victor Stone (Ray Fisher) – que é quem mais se beneficia das adições.

Um dos arcos mais satisfatório envolve o Superman (Henry Cavill), cujo renascimento para enfrentar a ameaça apocalíptica surge de maneira grandiosa e messiânica. Apesar de não tão longa, as interações entre Aquaman (Jason Momoa), Mera (Amber Heard) e Vulko (Willem Dafoe) são interessantes e adiciona mais uma mitologia dentro do mundo construido por Snyder. Não é novidade que Snyder possui uma visão mais sombria deste universo.

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Todo o humor adicionado pelo estúdio foi removido, mas ainda há muitos momentos genuinamente engraçados. Diferentemente do humor sarcástico e infantiloide concebido por Joss Whedon, aqui temos uma interação bem humorada que funciona organicamente. Com um mercado cada vez mais lotado por uma formula quase imutável de se fazer filmes de super-herói, a Liga da Justiça de Zack Snyder se destaca por sua personalidade e liberdade criativa.

Embora ainda seja um filme ‘’pop’’ mais palatável ao grande público do que seus dois predecessores. Tirando alguns momentos de violência gráfica e referências ao futuro da franquia, eu realmente não consegui enxergar uma ‘‘grande ambição e profundidade’’ que alguns – inclusive críticos – estão afirmando.

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Ousadia é o que Batman Vs Superman tem de mais valioso, e por mais que o Snyder Cut seja uma obra épica, inspiradora, e com grandes proporções, tenho uma preferência pelo charme atmosférico cínico e denso do seu antecessor. Nos últimos anos, a Warner Bros. mudou seus planos para o Universo Estendido da DC.

Ainda assim, a nova versão de Liga da Justiça estabelece as bases para o futuro, envolvendo um confronto direto com Darkseid e Lex Luthor (Jesse Eisenberg), e a expansão da equipe para incluir o Caçador de Marte (Harry Lennix) e Atom (Kai Zheng), Lanternas Verdes, entre outros. Sobre a presença do Coringa (Jared Leto), a participação é pequena, mas o suficiente para te fazer ficar interessado pelo Ayer Cut, o corte de diretor de Esquadrão Suicida – que está guardado no HD de David Ayer.

Este é definitivamente um trabalho de amor de Zack Snyder aos fãs. Um projeto que ganhou vida pelos fãs e foi feito para nós. É difícil não se emocionar quando sobem os créditos e você se recorda da longa odisséia que nos trouxe até aqui. O longa é a prova definitiva de que Snyder entende quem são esses personagens – por abraçar toda a rica e grandiosa mitologia do Universo DC – e tratá-los com o respeito que merecem. Talvez já esteja na hora de #RestoreTheSnyderVerse.

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Nota: 8/10

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